Archive for the ‘Cultura da Pelada’ Category

Prensada é da defesa

10/08/2011

Impedimento? Substituição? Árbitro, técnico e desconto? Tudo isso passa muito longe de onde acontece a maior parte dos jogos de futebol: os campos de pelada. Lá, as regras e ditados podem não ser exatamente do jeito que você aprendeu.

– A regra mais polêmica do futebol: mexeu o chinelo, é trave. Mas e se for na parte de dentro?

– A regra mais confusa: pediu, parou. Mas e se o cara pediu e não foi?

– A regra mais lendária: prensada é da defesa.

– Se ninguém é goleiro, tem que fazer rodízio. Aí é um cá ou dois lá. Mas se frangar, agarra outro.

– E se é furingo, não vale ter “goleiro”.

– O jogo só termina quando acaba. Ou seja, com cinco minutos… ou sete… ou dez. Ou com dois gols, o que vier primeiro.

– O código de ética: o que acontece em campo, fica em campo.

– Um grande clássico: casados contra solteiros.

– O maior clássico: com camisa contra sem camisa. E você passa de um time para o outro sem ter torcida pegando no seu pé (até porque quase sempre não tem torcida alguma).

– No inverno, antes do jogo se escolhe camisa ou bola.

– Empate não é um bom resultado, porque se empatar saem os dois.

– Eu já vi par ou ímpar mais tenso que partida de pênaltis.

– Sempre tenha um bom batedor – de par ou ímpar – no seu time.

– E o time que marcar o último gol é campeão do mundo.

O prêmio do peladeiro

22/11/2010

Milhões na frente da TV e milhões nas contas do banco. O esporte futebol tem uma face que é vitrine, profissional, milionária, que move paixões e multidões. Mas o esporte futebol também tem uma outra face que, embora mais discreta, é tão importante quanto a outra. Esse é o futebol amador, os praticantes de fim de semana, os famosos peladeiros.

Tal qual um lado do cérebro que tem especialidades maiores para razão e o outro para a emoção, completando a nossa identidade. O futebol precisa tanto da emoção dos furingos de garotos descalços no paralelepípedo, como da racionalidade às vezes cruel dos dirigentes e jogadores profissionais.

Quem nunca ouviu no último lance de uma pelada empatada a famosa frase “quem fizer agora é campeão do mundo?” Pois naquele momento, ela é a mais pura realidade: verdadeiras finais de Copa são travadas em cinco, sete, dez minutos… ou dois gols, o que acontecer primeiro. Os jogadores vão na bola como se um título da Libertadores dependesse daquela dividida. O campeão brasileiro pode sair daquele último ataque armado (por que você não tocou a bola para o cara que estava melhor posicionado?) e verdadeiras táticas de retranca podem ser improvisadas para segurar um título improvável.

Roubadas, divididas, reclamações, discussões, comemorações, contusões… por que tudo isso? Por que correr tanto o risco de chegar em casa estressado ou todo arrebentado? Ora, tudo por um prêmio que todo peladeiro quer: repetir tudo de novo por mais alguns minutos. Afinal,  quem ganha, continua jogando, essa é a regra universal das peladas (claro que se você é peladeiro, com certeza já sabia do que eu estava falando).

E se você acha que fazemos isso porque gostamos de sofrer, vê-se que você nunca esteve do lado de dentro de uma quadra. Aumentar seu tempo dentro de campo por mais alguns minutos é um prazer indescritível, porque antes de tudo, o peladeiro é um apaixonado. E é essa paixão que move o esporte futebol.

Milhões na frente da TV e milhões nas contas do banco. O esporte futebol tem uma face que é vitrine, profissional, milionária, que move paixões e multidões. Mas o esporte futebol também tem uma outra face que, embora mais discreta, é tão importante quanto a outra. Esse é o futebol amador, os praticantes de fim de semana, os famosos peladeiros.

Tal qual um lado do cérebro que tem especialidades maiores para razão e o outro para a emoção, completando a nossa identidade. O futebol precisa tanto da emoção dos furingos de garotos descalços no paralelepípedo, como da racionalidade às vezes cruel dos dirigentes e jogadores profissionais.

Quem nunca ouviu no último lance de uma pelada empatada a famosa frase “quem fizer agora é campeão do mundo?” Pois naquele momento, ela é a mais pura realidade: verdadeiras finais de Copa são travadas em cinco, sete, dez minutos… ou dois gols, o que acontecer primeiro. Os jogadores vão na bola como se um título da Libertadores dependesse daquela dividida. O campeão brasileiro pode sair daquele último ataque armado (por que você não tocou a bola para o cara que estava melhor posicionado?) e verdadeiras táticas de retranca podem ser improvisadas para segurar um título improvável.

Roubadas, divididas, reclamações, discussões, comemorações, contusões… por que tudo isso? Por que correr tanto o risco de chegar em casa estressado ou todo arrebentado? Ora, tudo por um prêmio que todo peladeiro quer: repetir tudo de novo por mais alguns minutos. Afinal, quem ganha, continua jogando, essa é a regra universal das peladas (claro que se você é peladeiro, com certeza já sabia do que eu estava falando).

E se você acha que fazemos isso porque gostamos de sofrer, vê-se que você nunca esteve do lado de dentro de uma quadra. Aumentar seu tempo dentro de campo por mais alguns minutos é um prazer indescritível, porque antes de tudo, o peladeiro é um apaixonado. E é essa paixão que move o esporte futebol.

Unha e Carne

16/11/2010

Não nascemos para viver longe um do outro. Na verdade, confesso que acredito na possibilidade de termos nascidos um para o outro. Eu e a bola.

Como se fosse uma reserva do destino, inevitável atração, foi amor ao primeiro quique.

Felizmente, não sou o único perdidamente envolvido nessa história. Seja jogador, seja peladeiro, atacante ou goleiro, dificilmente alguém não é seduzido pela dama branca. Ainda bem, porque quem não se rende à sua magia não conhece a alegria que a companhia dela traz.

São tantas alegrias que uma contusão soa mais como divórcio! E ficar longe das alegrias, longe da fiel parceira é uma triste paisagem de inverno. Amante do futebol quando fica sem a bola pira. É fato. Sonhos com a bola, depressão, sentimento de vazio interno. Não é fácil viver sem a amada.

Não adianta negar. Apaixonado pela bola vive isso, e muito mais. É um caminho sem volta, mas há quem negue, quem a recuse. Bom, há sim os que recusam. Os que com ela não têm intimidade alguma. E não adianta insistir, intimidade não se cria, se nasce. Assim fica fácil falar mal, nunca tiveram o gosto de um gol, de uma vitória ou, acredite, uma derrota.

Bola. Ela causa ciúmes até entre as mulheres. Mas os homens não têm culpa se a bola é sedutora. Ela atrai, conquista e cativa até mesmo aquele que pode não ser dos melhores, mas tem no coração o amor pelo futebol. Talvez por isso cause tanto ciúme, a bola não tem preconceitos, não vê cor nem cara. Ela simplesmente seduz.

Somos unha e carne. Amado e amante. E se me proibirem dela, eu fujo, fujo com ela. E se ela fugir de mim, eu corro atrás novamente no próximo lance. E se não tiver mais forças, tenho certeza que ela rolará para perto, como sempre fez, pois é uma fiel companheira.

Ídolos sem calçada 2

11/11/2010

Mais uma homenagem a todos os peladeiros, os verdadeiros praticantes da cultura do futebol.

Em pé: desconhecido, Papa, Rossini, desconhecido, desconhecido e Ronaldo. Agachado: Renato, Roney e desconhecido.

Domingo, eu vou ao Godozão…

Quem é carioca, sabe: há alguma coisa no Rio de Janeiro que faz com que nos sintamos em casa. É o clima, a paisagem, o espírito da cidade. Mesmo para quem é um carioca-deportado, como eu. Mas naquela vez estava ainda mais à vontade, pois fazia uma caminhada pelo Cachambi – honroso e desconhecido bairro da Zona Norte, reduto da família Vogas desde que ela se mudou do interior fluminense para a capital – na companhia de meu pai, que viveu mais tempo na região do que eu tenho em toda a vida.

Após um período de caminhada mostrando como eram as coisas na época dele, fazemos a primeira parada em frente a um grande pátio de automóveis e surge o primeiro momento mais nostálgico: “era aqui que ficava o Godozão”. Impossível não reconhecer o nome que eu ouvi durante histórias em toda minha infãncia. Meu pai havia jogado em todo o Rio, foi do time da UFF, categorias de base do Botafogo, mas nenhum campo tinha mais histórias que o Godozão. Todo peladeiro tem dentro da sua mente o seu Maracanã, o campo em que ele joga em casa. No Cachambi, o Godozão era o templo do futebol.

Durante aquela breve parada, um resumo de todas as histórias que vieram a sua cabeça. O gol que salvou o time, o drible que derrubou a zaga adversária, a defesa milagrosa, até o saudoso seu Godô, vigia do estacionamento ao lado que devolvia as bolas extraviadas e recebeu homenagem no “batismo” do campo. Histórias que, para quem não olha atentamente, estão soterradas embaixo do concreto que hoje ocupa o local.

Voltamos à nossa caminhada. Mas ela não seria mais a mesma. A cada bar, a cada esquina, velhos amigos surgiam e com eles todo o respeito pelo craque daquelas peladas. Cada um se apressava a falar espontaneamente “seu pai jogava muito”, e havia sempre uma nova história, um novo campeonato, um novo drible dos tempos do glorioso Godozão. Aquele senhor de idade ao longe fez questão de se apresentar como o cara que promovia as peladas. Então, como se fosse o objeto que procurava seu dono, surge do nada a última relíquia sagrada para o meu pai. A então perdida para sempre foto do time, perfilado, naquele campo; nela, entre figuras mais distantes na memória, se destacavam: Rossini, Renato, Roney e, ele, Ronaldo. Ou também: Vogas, Vogas, Vogas e, ele, Vogas, todos irmãos.

O caminho da vida levou o peladeiro para outros campos. Virou craque como profissional, craque como pai. Mas são essas caminhadas que fazem o seu merecido troféu.

Epílogo

Alguns anos depois desse episódio, de volta ao Rio, uma reunião foi o bastante para o assunto ser outro time. Um que, pela distância dos jogadores, só se reuniu para um campeonato e saiu campeão invicto. Está lá no álbum: Bruno, Tiago, Henrique, Vitor e Gabriel. Ou também: Vogas, Vogas, Vogas, Vogas e Vogas, todos primos. Eu estava nesse. O Renan quis jogar no outro time, perdeu e é eterno motivo de chacota. Se tivemos ou não a mesma maestria dos craques do Godozão, não importa. O importante é que tivemos bons exemplos, e a nossa foto cheia de histórias já existe.

 

Em pé: Ronaldo (craque de duas gerações), Tiago e Gabriel. Agachados: Vitor, Henrique, Bruno e Lucena.

Ídolos sem calçada 1

06/10/2010

O craque da pelada

Nem Pelé, nem Maradona. Mas também não foram Zico, Rivelino, Garrincha e nem tantos outros que estão na frente do argentino na minha lista. Mas esses ídolos são de uma outra realidade. O melhor jogador que eu tive o prazer de jogar no meu tempo foi Lucas Albani. Não conhece? Sem problemas, é só aparecer nas quadras de Vitória para acompanhar. Porque Lucas Albani, vulgo “O Proxeneta”, é craque de peladas.

E nem por isso deixou de construir uma legião de fãs-amigos. No Condomínio Mar Azul, era ídolo, maior artilheiro da história; contou 100 gols em menos de um mês. Na universidade, era caçado e odiado pelos rivais mais ferrenhos e admirado pelos mais camaradas. Confesso sem modéstia que tive boa contribuição na construção do mito, afinal a gente jogava umas três partidas por semana. Para mim, que me posicionava bem na marcação, tinha bom passe e fôlego para correr até o ataque e voltar o jogo todo, encontrar Lucas desmarcado era fácil. Muitas vezes, um gesto de cabeça já dizia se era “vou passar nas costas do adversário” ou “tabela que eu recebo na frente”. Por outras, nem precisava olhar para saber onde ele ia estar. E aí o poder de decisão era incrível. Sem firulas, driblando para frente, com inteligência de jogo, humildade para reconhecer os erros e bola no fundo do gol, pois isso é futebol – e se errar fica esperando de fora.

Além de alguns campeonatos, presenciei outras façanhas na “carreira” de Lucas que só quem joga pelada sabe como são. O recorde de duas horas sem sair de quadra na quadra de “Potosí”. Uma hora só ganhando na quadra da Ufes, com uns três gols seus no “sair acaba”. E aquela primeira pelada na Contec, que ficamos de fora e quando entramos decidimos o jogo em 5 toques (igual a 2 gols).

É, meu camarada, bons tempos. Mas a vida de peladeiro é diferente de boleiro e as recordações vão ficando pelo caminho, junto com o fôlego – este meu velho companheiro já dá sinal de cansaço. Como já foi dessa o saudoso Mestre PC, grande amigo e técnico da Selecom, com quem Lucas era titular absoluto, sempre em nossa memória. Não há programas especiais sobre a carreira do peladeiro, nem recortes de jornais ou nada que prove tudo aquilo que foi dito. Mas as histórias, essas ficam, sendo contadas em cada esquina pelos bons e velhos amigos. Ainda ecoam no Cachambi, Zona Norte do Rio, o respeito por Renato, Roney, Rossini e, principalmente, Ronaldo Vogas, reis do Godozão. Uma conversa entre primos é o bastante para desenterrar a bem-sucedida equipe dessa segunda geração, com Gabriel, Henrique, Bruno, Tiago, Vitor e, novamente ele, Ronaldo Vogas, e eternas zoações com o Renan, que quis jogar pela sua outra família e perdeu (mas isso é história para outro texto). E junto com você, as pessoas ainda se lembram de Mudo, Batistuta, Engenheiro, Douglas, Marcos, Alemão, Jirlan, João, Téo…

Portanto, mesmo estando novo ainda, com muita quadra para correr, neste seu aniversário tenha uma preocupação a menos. Onde e quando o restante dos amigos e bons peladeiros deste tempo de hoje se reunirem, vamos nos lembrar de quem foi Lucas Albani. Pois assim são com os craques da pelada que também são craques da vida. Parabéns, brou.

A homenagem foi ao aniversariante Lucas Albani, produtor do Cultura F. C., mas esta sessão é dedicada a todos os peladeiros, que movem a verdadeira cultura do futebol no Brasil. Qualquer um pode se identificar com o personagem do texto.

Crônica: O jogo atemporal

22/09/2010

Rola a bola e o tempo pára. Aquela satisfação pelo trabalho que foi feito de manhã se esvai. A preocupação pelo texto que você ficou de enviar no primeiro horário do outro dia não existe mais. Se a bola rola, passado e futuro são inalcançáveis.

Enquanto físicos do mundo inteiro procuram por novas dimensões além das quatro conhecidas, dentro de campo elas são reduzidas a apenas três: profundidade, percebida no passe para o primeiro gol; largura, percebida desesperadamente pelo goleiro que grita por mais um jogador na barreira; e altura, esquecida pelo zagueiro que não pulou junto com o atacante que cabeceava sozinho. O tempo é deixado para quem espera do lado de fora. E lá ele passa devagar, como se fosse para compensar todos aqueles que não o sentem passar dentro das quatro linhas.

Você recebe a bola, passa, corre, se desmarca, recebe na frente, chuta e comemora. Sempre vivendo aquele momento. Coitados daqueles que tentam sair da hipnose do jogo. Pensou naquele passe errado no começo do jogo? Vai errar o próximo. Recebeu a bola e pensou em como driblará os dois zagueiros e o goleiro à frente? Perdeu a bola para o volante que nem viu de onde veio. Se não soube o que fazer com a bola no exato momento em que a recebeu, já era.

No xadrez, o craque tem que pensar dez, vinte lances na frente. O craque do futebol pode até pensar dois, três toques, mas sempre processando o que está acontecendo no momento. Onde estão os adversários, onde estão os companheiros e para onde estão correndo. Uma fração de atenção – ou desatenção – pode gerar um plano completamente novo de jogada. Dentro do campo, tudo depende de cada momento.

Viver o presente. Uma busca secular de muitas filosofias e que poucas atividades conseguem propiciar. É por isso que o prazer atemporal do futebol não tem preço e tem tantos adeptos e dependentes psicológicos. Quem consegue estar lá, não quer parar. E a simplicidade da sabedoria do peladeiro já diria o que Einstein provou com cálculos complicados: o tempo não passa igual para todos.

Por: Cultura FC