Archive for the ‘Crônicas’ Category

Acabou o respeito

12/10/2011

Venezuela 1, Argentina 0. Mais surpreendente que o placar é saber que poderia ter sido mais. Um resultado histórico, pois agora todas as seleções da Conmebol já se derrotaram mutuamente (para quem não se lembra, há 3 anos a mesma Venezuela derrotou o Brasil em um amistoso). O último passo para uma quebra total de hierarquia no continente é a seleção vinotinto conseguir se classificar para uma Copa, feito que só a ela falta. E eles provaram que vão tentar com todos as forças desta vez. E sem respeitar nenhum adversário.

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Prensada é da defesa

10/08/2011

Impedimento? Substituição? Árbitro, técnico e desconto? Tudo isso passa muito longe de onde acontece a maior parte dos jogos de futebol: os campos de pelada. Lá, as regras e ditados podem não ser exatamente do jeito que você aprendeu.

– A regra mais polêmica do futebol: mexeu o chinelo, é trave. Mas e se for na parte de dentro?

– A regra mais confusa: pediu, parou. Mas e se o cara pediu e não foi?

– A regra mais lendária: prensada é da defesa.

– Se ninguém é goleiro, tem que fazer rodízio. Aí é um cá ou dois lá. Mas se frangar, agarra outro.

– E se é furingo, não vale ter “goleiro”.

– O jogo só termina quando acaba. Ou seja, com cinco minutos… ou sete… ou dez. Ou com dois gols, o que vier primeiro.

– O código de ética: o que acontece em campo, fica em campo.

– Um grande clássico: casados contra solteiros.

– O maior clássico: com camisa contra sem camisa. E você passa de um time para o outro sem ter torcida pegando no seu pé (até porque quase sempre não tem torcida alguma).

– No inverno, antes do jogo se escolhe camisa ou bola.

– Empate não é um bom resultado, porque se empatar saem os dois.

– Eu já vi par ou ímpar mais tenso que partida de pênaltis.

– Sempre tenha um bom batedor – de par ou ímpar – no seu time.

– E o time que marcar o último gol é campeão do mundo.

E aí, ouvinte, tá gostando?

09/08/2011

O FUTEBOL E O RÁDIO

Há muito tempo estava com saudade de um grande companheiro de torcida, que me levava aos estádios de todo o Brasil: o rádio. Nos dias de hoje em que pay-per-views da vida levam para a TV quase todos os jogos importantes do país – o que é muito bom, diga-se de passagem –, confesso que fui visitando cada vez menos meu bom e velho radinho, ao qual passava pelo menos duas horas grudado nos fins de semana.

Mas há situações em que ele ainda é fundamental. Na rua, no carro. Pena que meu celular só pega FM e o rádio do meu carro pega AM muito mal. E transmissão de rádio de verdade é com José Carlos Araújo, o Garotinho, e toda a equipe da Rádio Globo. É uma pena ver os “torcedores do futuro” (nome dado às crianças convidadas para as transmissões) já não conhecerem esse veículo tão importante na crônica esportiva e nem os seus ícones. A emoção de ouvir o jogo no rádio é indescritível.

E em que transmissão de TV você imaginaria o seu comentarista ameaçando ir embora, como Gérson já fez ao ver o técnico do Flamengo tirar o Júnior (o mais novo, não o Maestro) que, para ele, era o melhor em campo? Em que narração você vê o repórter/comentarista se dirigir diretamente ao atleta para dar uma bronca, como o famoso “pára com isso” do Gilson Ricardo?

Mas na última quarta não teve jeito. No meu carro, ao descobrir que a CBN (que é FM) não passava o jogo do meu time, apelei para a AM. É, Garotinho, confesso que me emocionei quando meu time foi ao ataque e você narrou “apontou, atirou… ENTROU!” Mais do que o gol, foi como reencontrar um velho amigo. E entre uma interferência e outra, fui me sentindo novamente no estádio através do meu rádio. E quando você mandou “você ao volante, obrigado pela carona que me dá”, não teve como não responder: obrigado a VOCÊ pela carona.

José Carlos Araújo (obs.: na primeira foto, o radialista era Ary Barroso).

Siga o resto do post clicando abaixo e confira bordões e narrações de Garotinho.

(more…)

Cultura FC Produções apresenta…

16/07/2011

COPA DE 1950 – A VERDADE QUE O BRASIL SEMPRE PROCUROU

Hoje, 16 de julho de 2011, a partida que mais marcou o futebol brasileiro comemora 61 anos. E para comemorar, o cultura apresenta sua primeira produção audiovisual própria. Boa sessão.

Créditos:

Produção: Cultura FC

Roteiro e Direção: Gabriel Vogas

Edição e Narração: Lucas Albani

Música e Produção de Áudio: Luan Albani

Baseado no roteiro de João Luiz de Albuquerque descrito no livro “Futebol, o Brasil em Campo” de Alex Bellos.

43′ Petković 10 anos – o significado de um gol

27/05/2011

Tudo jogava contra nós. A vantagem jogava contra: o Vasco podia até perder por um gol de diferença. O momento jogava contra: em uma semana, perdemos a primeira partida para o Vasco e fomos eliminados da Copa do Brasil pelo Coxa. Os craques jogavam contra: estavam brigando entre eles e o nosso camisa 10 abandonara a concentração na antevéspera do jogo. E, por fim e mais incrível, a torcida jogava contra: pixando os muros da Gávea com frases até de “morte aos sérvios”.

Mas tudo jogava a favor porque somos o Flamengo. A vantagem jogava a favor porque deu mais motivação à equipe de jogar contra um rival que tínhamos ampla vantagem em confrontos recentes. O momento jogava a favor porque era uma decisão e se tem algo que marca o Flamengo é que ele é o time das decisões. Os craques jogavam a favor porque eram Edílson e, claro, Petković, o gringo. E a torcida jogava a favor porque, ora, somos flamenguistas e temos sempre a certeza de que podemos fazer a diferença.

Lotamos os estádios: o Maracanã e nossas salas. E temos certeza que jogamos juntos. Mas chegando aos 42 minutos com 2 a 1 no placar, ainda nos faltava algo que nos acostumamos a ver brilhar e decidir a nosso favor: a camisa 10 do Flamengo. Se para Nélson Rodrigues, que era Fluminense até debaixo d’água, haveria de chegar o dia que o Flamengo não precisaria de jogadores, apenas de sua camisa, a 10 é aquela que é reverenciada até pela suas companheiras. A camisa 10 do Flamengo tem o poder de transformar qualquer perna-de-pau em um craque por alguns minutos, embora muitos que a usem se esforcem ao máximo para não se render a esse destino.

Não era o caso de Petković. A distância entre o Rio e a Sérvia não foi o bastante para que a camisa 10 achasse seu escolhido. Ele nasceu destinado a vesti-la. Ele nasceu destinado a cobrar aquela falta. Ele nasceu destinado a fazê-la voltar a brilhar diante de seus súditos a desesperantes 43 minutos do segundo tempo. E nesta semana de aniversário, Petković confirmou nossas suspeitas: jogamos juntos com a nossa 10 e fizemos aquela bola entrar.

As outras torcidas parecem não entender: por que comemorar um gol que valeu um campeonato estadual 10 anos depois quando o próprio Petković faria muito mais por nós no Campeonato Brasileiro de 2009? Comemoramos pela paixão. Comemoramos pela nossa camisa 10. Comemoramos pelo título, pela virada, pela garra, pela união, porque todos têm uma história daquele 27 de maio. E, acima de tudo, comemoramos porque somos flamenguistas e para nós isso tudo pode ser resumido em um gol…

…de Petković aos 43 do segundo tempo.

Crônica por Gabriel Vogas

O show vai começar.

24/03/2011

Meu pai é cardíaco e meu pai é tricolor. Combinação perigosa. Em 2009, ao seu lado, eu vi o Fluminense ser rebaixado quando o Cruzeiro marcou 2 a 0 no Mineirão ainda no primeiro tempo. Em 2010, ao seu lado, eu vi o Fluminense deixar o título escapar no gol de Rafael Moura, então no Goiás, em pleno Engenhão; vi o título escapar no gol do são-paulino Lucas Gaúcho e do reserva palmeirense Dinei, ambos na Arena Barueri. Ontem, eu vi o Fluminense ter o sonho da Libertadores encerrado por dois gols que desanimariam até o melhor dos times… simplesmente não era o dia do tricolor, não poderia ser quando até a sua muralha, o autor de vários milagres de Berna, falha. Mas o Fluminense não foi rebaixado em 2009. O Fluminense não deixou o título escapar em 2010. E o sonho da Libertadores ainda não acabou. É, meus velhos tricolores: preparem seu coração. O show vai começar.

O campeão em 3 turnos

06/12/2010

Eu não sou numerólogo, nem acredito em previsões ao estilo Nostradamus, mas parece que o destino marcou para 2010 um encontro com o Fluminense e o número 3. O clube das 3 cores que traduzem tradição chegou ontem ao seu 3° título brasileiro, pela 3ª vez nas últimos 3 conquistas nacionais, seguindo o seu “irmão” Flamengo (campeão Brasileiro de 83, Copa do Brasil de 2006 e Brasileiro de 2009). E, pela primeira vez, foi um time que precisou ter uma campanha quase impecável em 3 turnos para levantar a taça.

É isso mesmo, 2 turnos foi pouco para a conquista do Fluminense. Se o time tem peças parecidas dentro de campo (com reforços deste ano), fora dele Cuca e Muricy merecem dividir a medalha. Foi com aquela arrancada incrível, heróica, histórica, para salvar o Fluminense de um rebaixamento quase consagrado, que o tricolor começou o seu caminho ao título. Não foi impecável, porque o Fluminense patinou em alguns momentos do campeonato, principalmente quando sua casa mudou do Maracanã para o Engenhão (e junto vieram muitas contusões). Mas por outro lado, apenas um tropeço a mais em qualquer um dos últimos 3 turnos tiraria o título das Laranjeiras (é, se fosse no ano passado, o título deste ano só viria se fosse da segunda divisão).

Então o destino (conhecido também como muita luta e trabalho de profissionais competentes) premiou o Fluminense com esse título mais que justo, coroando uma história que já era digna de um épico. Após 26 anos, vence o Fluminense. Porque como diz o hino, quem espera sempre alcança.

Momento “Polvo Paul”

O Cultura não é o polvo famoso, mas o nosso post sobre o ótimo ano do futebol carioca em 2009 acertou 75% das previsões que fez: Fluminense na briga pelo título, Vasco e Botafogo com boas campanhas; erramos no Flamengo, mas o Flamengo teve um ano que nem o nosso falecido molusco poderia prever (clique aqui e confira).

História Paralela


O título do Fluminense ainda teve um gosto especial para mim. Eu sendo Flamengo e meu pai Fluminense, sempre acompanhamos futebol juntos, mas nunca fomos a um estádio de série A ao mesmo tempo. Ontem, estava com ele no Engenhão e pudemos comemorar juntos. Se ontem este era um segredo de vida ou morte, com o título nas mãos acredito que estarei a salvo e meus amigos tricolores vão solicitar minha presença de pé-quente em decisões futuras. Mesmo porque, até que se prove o contrário, me apresento como o único torcedor bi-campeão 2009/2010, pois para minha alegria também estava no Flamengo 2 x 1 Grêmio do Maraca ano passado (acumulado, superei 43 anos de jejum do Fla-Flu).

P.S.: Gabriel Vogas é flamenguista, mas fez questão de pedir a benção a João de Deus.

 

Eu não sou numerólogo, nem acredito em previsões ao estilo Nostradamus, mas parece que o destino marcou para 2010 um encontro com o Fluminense e o número 3. O clube das 3 cores que traduzem tradição chegou ontem ao seu 3° título brasileiro, pela 3ª vez nas últimos 3 conquistas nacionais, seguindo o seu “irmão” Flamengo (campeão Brasileiro de 83, Copa do Brasil de 2006 e Brasileiro de 2009). E, pela primeira vez, foi um time que precisou ter uma campanha quase impecável em 3 turnos para levantar a taça.

É isso mesmo, 2 turnos foi pouco para a conquista do Fluminense. Se o título tem peças parecidas dentro de campo (com reforços deste ano), mas fora dele Cuca e Muricy merecem dividir a medalha. Foi com aquela arrancada incrível, heróica, histórica, para salvar o Fluminense de um rebaixamento quase consagrado, que o tricolor começou o seu caminho ao título. Não foi impecável, porque o Fluminense patinou em alguns momentos do campeonato, principalmente quando sua casa mudou do Maracanã para o Engenhão (e junto vieram muitas contusões). Mas por outro lado, apenas um tropeço a mais em qualquer um dos últimos 3 turnos tiraria o título das Laranjeiras (é, se fosse no ano passado, o título deste ano só viria se fosse da segunda divisão).

Então o destino (conhecido também como muita luta e trabalho de profissionais competentes) premiou o Fluminense com esse título mais que justo, coroando uma história que já era digna de um épico. Após 26 anos, vence o Fluminense. Porque como diz o hino, quem espera sempre alcança.

Momento “Polvo Paul”

O Cultura não é o polvo famoso, mas o nosso post sobre o ótimo ano do futebol carioca em 2009 acertou 75% das previsões que fez (clique aqui e confira).

História Paralela

O título do Fluminense ainda teve um gosto especial para mim. Eu sendo Flamengo e meu pai Fluminense, sempre acompanhamos futebol juntos, mas nunca fomos a um estádio de série A ao mesmo tempo. Ontem, estava com ele no Engenhão e pudemos comemorar juntos. Se ontem este era um segredo de vida ou morte, com o título nas mãos acredito que estarei a salvo e meus amigos tricolores vão solicitar minha presença de pé-quente em decisões futuras. Mesmo porque, até que se prove o contrário, me apresento como o único torcedor bi-campeão 2009/2010, pois para minha alegria também estava no Flamengo 2 x 1 Grêmio do Maraca ano passado (acumulado, superei 43 anos de jejum do Fla-Flu).

P.S.: Gabriel Vogas é flamenguista, mas fez questão de pedir a benção a João de Deus.

O prêmio do peladeiro

22/11/2010

Milhões na frente da TV e milhões nas contas do banco. O esporte futebol tem uma face que é vitrine, profissional, milionária, que move paixões e multidões. Mas o esporte futebol também tem uma outra face que, embora mais discreta, é tão importante quanto a outra. Esse é o futebol amador, os praticantes de fim de semana, os famosos peladeiros.

Tal qual um lado do cérebro que tem especialidades maiores para razão e o outro para a emoção, completando a nossa identidade. O futebol precisa tanto da emoção dos furingos de garotos descalços no paralelepípedo, como da racionalidade às vezes cruel dos dirigentes e jogadores profissionais.

Quem nunca ouviu no último lance de uma pelada empatada a famosa frase “quem fizer agora é campeão do mundo?” Pois naquele momento, ela é a mais pura realidade: verdadeiras finais de Copa são travadas em cinco, sete, dez minutos… ou dois gols, o que acontecer primeiro. Os jogadores vão na bola como se um título da Libertadores dependesse daquela dividida. O campeão brasileiro pode sair daquele último ataque armado (por que você não tocou a bola para o cara que estava melhor posicionado?) e verdadeiras táticas de retranca podem ser improvisadas para segurar um título improvável.

Roubadas, divididas, reclamações, discussões, comemorações, contusões… por que tudo isso? Por que correr tanto o risco de chegar em casa estressado ou todo arrebentado? Ora, tudo por um prêmio que todo peladeiro quer: repetir tudo de novo por mais alguns minutos. Afinal,  quem ganha, continua jogando, essa é a regra universal das peladas (claro que se você é peladeiro, com certeza já sabia do que eu estava falando).

E se você acha que fazemos isso porque gostamos de sofrer, vê-se que você nunca esteve do lado de dentro de uma quadra. Aumentar seu tempo dentro de campo por mais alguns minutos é um prazer indescritível, porque antes de tudo, o peladeiro é um apaixonado. E é essa paixão que move o esporte futebol.

Milhões na frente da TV e milhões nas contas do banco. O esporte futebol tem uma face que é vitrine, profissional, milionária, que move paixões e multidões. Mas o esporte futebol também tem uma outra face que, embora mais discreta, é tão importante quanto a outra. Esse é o futebol amador, os praticantes de fim de semana, os famosos peladeiros.

Tal qual um lado do cérebro que tem especialidades maiores para razão e o outro para a emoção, completando a nossa identidade. O futebol precisa tanto da emoção dos furingos de garotos descalços no paralelepípedo, como da racionalidade às vezes cruel dos dirigentes e jogadores profissionais.

Quem nunca ouviu no último lance de uma pelada empatada a famosa frase “quem fizer agora é campeão do mundo?” Pois naquele momento, ela é a mais pura realidade: verdadeiras finais de Copa são travadas em cinco, sete, dez minutos… ou dois gols, o que acontecer primeiro. Os jogadores vão na bola como se um título da Libertadores dependesse daquela dividida. O campeão brasileiro pode sair daquele último ataque armado (por que você não tocou a bola para o cara que estava melhor posicionado?) e verdadeiras táticas de retranca podem ser improvisadas para segurar um título improvável.

Roubadas, divididas, reclamações, discussões, comemorações, contusões… por que tudo isso? Por que correr tanto o risco de chegar em casa estressado ou todo arrebentado? Ora, tudo por um prêmio que todo peladeiro quer: repetir tudo de novo por mais alguns minutos. Afinal, quem ganha, continua jogando, essa é a regra universal das peladas (claro que se você é peladeiro, com certeza já sabia do que eu estava falando).

E se você acha que fazemos isso porque gostamos de sofrer, vê-se que você nunca esteve do lado de dentro de uma quadra. Aumentar seu tempo dentro de campo por mais alguns minutos é um prazer indescritível, porque antes de tudo, o peladeiro é um apaixonado. E é essa paixão que move o esporte futebol.

Unha e Carne

16/11/2010

Não nascemos para viver longe um do outro. Na verdade, confesso que acredito na possibilidade de termos nascidos um para o outro. Eu e a bola.

Como se fosse uma reserva do destino, inevitável atração, foi amor ao primeiro quique.

Felizmente, não sou o único perdidamente envolvido nessa história. Seja jogador, seja peladeiro, atacante ou goleiro, dificilmente alguém não é seduzido pela dama branca. Ainda bem, porque quem não se rende à sua magia não conhece a alegria que a companhia dela traz.

São tantas alegrias que uma contusão soa mais como divórcio! E ficar longe das alegrias, longe da fiel parceira é uma triste paisagem de inverno. Amante do futebol quando fica sem a bola pira. É fato. Sonhos com a bola, depressão, sentimento de vazio interno. Não é fácil viver sem a amada.

Não adianta negar. Apaixonado pela bola vive isso, e muito mais. É um caminho sem volta, mas há quem negue, quem a recuse. Bom, há sim os que recusam. Os que com ela não têm intimidade alguma. E não adianta insistir, intimidade não se cria, se nasce. Assim fica fácil falar mal, nunca tiveram o gosto de um gol, de uma vitória ou, acredite, uma derrota.

Bola. Ela causa ciúmes até entre as mulheres. Mas os homens não têm culpa se a bola é sedutora. Ela atrai, conquista e cativa até mesmo aquele que pode não ser dos melhores, mas tem no coração o amor pelo futebol. Talvez por isso cause tanto ciúme, a bola não tem preconceitos, não vê cor nem cara. Ela simplesmente seduz.

Somos unha e carne. Amado e amante. E se me proibirem dela, eu fujo, fujo com ela. E se ela fugir de mim, eu corro atrás novamente no próximo lance. E se não tiver mais forças, tenho certeza que ela rolará para perto, como sempre fez, pois é uma fiel companheira.

Ídolos sem calçada 2

11/11/2010

Mais uma homenagem a todos os peladeiros, os verdadeiros praticantes da cultura do futebol.

Em pé: desconhecido, Papa, Rossini, desconhecido, desconhecido e Ronaldo. Agachado: Renato, Roney e desconhecido.

Domingo, eu vou ao Godozão…

Quem é carioca, sabe: há alguma coisa no Rio de Janeiro que faz com que nos sintamos em casa. É o clima, a paisagem, o espírito da cidade. Mesmo para quem é um carioca-deportado, como eu. Mas naquela vez estava ainda mais à vontade, pois fazia uma caminhada pelo Cachambi – honroso e desconhecido bairro da Zona Norte, reduto da família Vogas desde que ela se mudou do interior fluminense para a capital – na companhia de meu pai, que viveu mais tempo na região do que eu tenho em toda a vida.

Após um período de caminhada mostrando como eram as coisas na época dele, fazemos a primeira parada em frente a um grande pátio de automóveis e surge o primeiro momento mais nostálgico: “era aqui que ficava o Godozão”. Impossível não reconhecer o nome que eu ouvi durante histórias em toda minha infãncia. Meu pai havia jogado em todo o Rio, foi do time da UFF, categorias de base do Botafogo, mas nenhum campo tinha mais histórias que o Godozão. Todo peladeiro tem dentro da sua mente o seu Maracanã, o campo em que ele joga em casa. No Cachambi, o Godozão era o templo do futebol.

Durante aquela breve parada, um resumo de todas as histórias que vieram a sua cabeça. O gol que salvou o time, o drible que derrubou a zaga adversária, a defesa milagrosa, até o saudoso seu Godô, vigia do estacionamento ao lado que devolvia as bolas extraviadas e recebeu homenagem no “batismo” do campo. Histórias que, para quem não olha atentamente, estão soterradas embaixo do concreto que hoje ocupa o local.

Voltamos à nossa caminhada. Mas ela não seria mais a mesma. A cada bar, a cada esquina, velhos amigos surgiam e com eles todo o respeito pelo craque daquelas peladas. Cada um se apressava a falar espontaneamente “seu pai jogava muito”, e havia sempre uma nova história, um novo campeonato, um novo drible dos tempos do glorioso Godozão. Aquele senhor de idade ao longe fez questão de se apresentar como o cara que promovia as peladas. Então, como se fosse o objeto que procurava seu dono, surge do nada a última relíquia sagrada para o meu pai. A então perdida para sempre foto do time, perfilado, naquele campo; nela, entre figuras mais distantes na memória, se destacavam: Rossini, Renato, Roney e, ele, Ronaldo. Ou também: Vogas, Vogas, Vogas e, ele, Vogas, todos irmãos.

O caminho da vida levou o peladeiro para outros campos. Virou craque como profissional, craque como pai. Mas são essas caminhadas que fazem o seu merecido troféu.

Epílogo

Alguns anos depois desse episódio, de volta ao Rio, uma reunião foi o bastante para o assunto ser outro time. Um que, pela distância dos jogadores, só se reuniu para um campeonato e saiu campeão invicto. Está lá no álbum: Bruno, Tiago, Henrique, Vitor e Gabriel. Ou também: Vogas, Vogas, Vogas, Vogas e Vogas, todos primos. Eu estava nesse. O Renan quis jogar no outro time, perdeu e é eterno motivo de chacota. Se tivemos ou não a mesma maestria dos craques do Godozão, não importa. O importante é que tivemos bons exemplos, e a nossa foto cheia de histórias já existe.

 

Em pé: Ronaldo (craque de duas gerações), Tiago e Gabriel. Agachados: Vitor, Henrique, Bruno e Lucena.