Copa da França: um esporte de todos, um campeonato para todos.

A Copa do Brasil é o maior campeonato organizado atualmente pela CBF com 64 times. À primeira vista pode parece grande, mas nem se compara ao recorde do Brasileiro de 1979, com 94 participantes. O que dizer então de um torneio com 7.449 clubes no páreo? Conheça um pouco da Copa da França, o maior torneio de futebol do mundo.

Quando o Lille bateu no último sábado o Paris Saint-Germain por 1 a 0, ele deixava para trás seu presente adversário e, também, mais 7.447 clubes de todos os continentes do planeta, exceto a Ásia. Disputada desde 1918, quando teve o hoje inexpressivo número de 48 inscritos, a Copa da França se tornou um importante instrumento de unidade nacional dos franceses.

Isso se deve à história francesa de conquistas coloniais. Do século XVI ao século XX, o país conquistou e explorou colônias em todos os cantos da Terra, de Quebec no Canadá, à França Antártica no Rio de Janeiro. Do Marrocos à Polinésia Francesa. E, embora muitos territórios tenham mudado de mãos ou, mais freqüentemente, se tornado independentes, alguns optaram por uma mudança de relação com a metrópole e hoje integram a República Francesa como territórios de ultramar ou até mesmo como um departamento, tendo o mesmo direito que qualquer outro departamento francês europeu (ou da França Metropolitana, como é conhecido o território europeu). Por exemplo, ao entrar na Guiana Francesa, região e departamento de ultramar, você está tão na França como se estivesse na Île-de-France,  região da qual o departamento de Paris faz parte.

A França hoje em azul: mais escuro, locais completamente integrados à República (França Metropolitana e os 5 departamentos de ultramar); em tom médio, os territórios de ultramar; claro, territórios sem população permanente (clique para ampliar).

Em competições de caráter mundial, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, um cidadão francês de qualquer um desses territórios deve competir sob a bandeira da França. Entretanto, por questões logísticas claras, os departamentos e territórios de ultramar têm permissão para realizar suas ligas e campeonatos independentes e, inclusive, montar seleções. Na Copa Ouro da Concacaf de 2007, por exemplo, Guadalupe dividiu o 3º lugar com o Canadá, mas a seleção não pode participar das eliminatórias para a Copa – é filiada à confederação continental, mas não tem permissão para adentrar na Fifa.

Seleção de Guadalupe em ação contra o México na Copa Ouro; filiada à Concacaf, mas não à Fifa.

O momento de união é exatamente a Copa da França, em que franceses levam ao extremo o conceito de “copa”, ou seja, torneio aberto a quem quiser participar, independente de série – como a Copa do Mundo, que é aberta a todos os filiados da Fifa nas eliminatórias, independente de série (por isso a entidade gosta de chamar de torneio final o campeonato pós-eliminatória). Qualquer time, de qualquer parte do território governado por eles, pode se inscrever no torneio.

Foi assim que chegamos ao recorde de 2011, com 7.449 inscritos, dez vezes mais que a FA Cup (Copa da Inglaterra), torneio de futebol mais antigo do mundo. A final, jogada no último sábado, era a 14 fase eliminatória. Para preservar equipes profissionais, baratear custos e fazer o torneio viável em apenas uma temporada, alguns artifícios são utilizados: as fases são todas eliminatórias em jogo único; as primeiras são regionais, sendo que apenas uma equipe de cada região de ultramar viaja à França Européia para permanecer na disputa; e, claro, as equipes profissionais só entram mais à frente no torneio (o pessoal da League 2 – série B – entra já na 7ª fase, enquanto a League 1 – série A – aguarda até a 9ª). E, claro, que tem as surpresas: o desconhecido Guingamp foi sem escala da League 2 à Liga Europa em 2009 graças à Copa. O ainda menos expressivo Calais bateu na trave com o vice de 2000 – o time jogava o equivalente à 4ª divisão.

Calais em 2000: um time amador que se aventurou na final da Copa da França.

Como você pode ver, curiosidades não faltam para fazer da Copa da França um torneio cheio de charme (inclusive o tradicional sistema de numeração, mas isso é assunto para o próximo post). Mais liberté, égalité et fraternité, impossível.

Uma resposta to “Copa da França: um esporte de todos, um campeonato para todos.”

  1. A mística do camisa… 52??? Números, uma tradição do futebol. « Says:

    […] Copa da França: um esporte de todos, um campeonato para todos. Filosofias da Bola n° 23 […]

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