Ídolos sem calçada 2

Mais uma homenagem a todos os peladeiros, os verdadeiros praticantes da cultura do futebol.

Em pé: desconhecido, Papa, Rossini, desconhecido, desconhecido e Ronaldo. Agachado: Renato, Roney e desconhecido.

Domingo, eu vou ao Godozão…

Quem é carioca, sabe: há alguma coisa no Rio de Janeiro que faz com que nos sintamos em casa. É o clima, a paisagem, o espírito da cidade. Mesmo para quem é um carioca-deportado, como eu. Mas naquela vez estava ainda mais à vontade, pois fazia uma caminhada pelo Cachambi – honroso e desconhecido bairro da Zona Norte, reduto da família Vogas desde que ela se mudou do interior fluminense para a capital – na companhia de meu pai, que viveu mais tempo na região do que eu tenho em toda a vida.

Após um período de caminhada mostrando como eram as coisas na época dele, fazemos a primeira parada em frente a um grande pátio de automóveis e surge o primeiro momento mais nostálgico: “era aqui que ficava o Godozão”. Impossível não reconhecer o nome que eu ouvi durante histórias em toda minha infãncia. Meu pai havia jogado em todo o Rio, foi do time da UFF, categorias de base do Botafogo, mas nenhum campo tinha mais histórias que o Godozão. Todo peladeiro tem dentro da sua mente o seu Maracanã, o campo em que ele joga em casa. No Cachambi, o Godozão era o templo do futebol.

Durante aquela breve parada, um resumo de todas as histórias que vieram a sua cabeça. O gol que salvou o time, o drible que derrubou a zaga adversária, a defesa milagrosa, até o saudoso seu Godô, vigia do estacionamento ao lado que devolvia as bolas extraviadas e recebeu homenagem no “batismo” do campo. Histórias que, para quem não olha atentamente, estão soterradas embaixo do concreto que hoje ocupa o local.

Voltamos à nossa caminhada. Mas ela não seria mais a mesma. A cada bar, a cada esquina, velhos amigos surgiam e com eles todo o respeito pelo craque daquelas peladas. Cada um se apressava a falar espontaneamente “seu pai jogava muito”, e havia sempre uma nova história, um novo campeonato, um novo drible dos tempos do glorioso Godozão. Aquele senhor de idade ao longe fez questão de se apresentar como o cara que promovia as peladas. Então, como se fosse o objeto que procurava seu dono, surge do nada a última relíquia sagrada para o meu pai. A então perdida para sempre foto do time, perfilado, naquele campo; nela, entre figuras mais distantes na memória, se destacavam: Rossini, Renato, Roney e, ele, Ronaldo. Ou também: Vogas, Vogas, Vogas e, ele, Vogas, todos irmãos.

O caminho da vida levou o peladeiro para outros campos. Virou craque como profissional, craque como pai. Mas são essas caminhadas que fazem o seu merecido troféu.

Epílogo

Alguns anos depois desse episódio, de volta ao Rio, uma reunião foi o bastante para o assunto ser outro time. Um que, pela distância dos jogadores, só se reuniu para um campeonato e saiu campeão invicto. Está lá no álbum: Bruno, Tiago, Henrique, Vitor e Gabriel. Ou também: Vogas, Vogas, Vogas, Vogas e Vogas, todos primos. Eu estava nesse. O Renan quis jogar no outro time, perdeu e é eterno motivo de chacota. Se tivemos ou não a mesma maestria dos craques do Godozão, não importa. O importante é que tivemos bons exemplos, e a nossa foto cheia de histórias já existe.

 

Em pé: Ronaldo (craque de duas gerações), Tiago e Gabriel. Agachados: Vitor, Henrique, Bruno e Lucena.
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2 comentários sobre “Ídolos sem calçada 2

  1. BRUNO VOGAS

    MUITO MANEIRO GABRIEL!!! ACHO ATÉ QUE ESSE NOSSO TIME GANHA DO GODOZÃO DE LAVADA!!! ESTAMOS INVICTOS ATE HJ!!! RS…

    ABÇS

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