Chega de 0 a 0. O pesadelo da matemática.

Nós já vamos avisando: se você é matemático, engenheiro ou qualquer outra área em que as ciências exatas são fundamentais, a história contida nesse post pode gerar pesadelos. Houve uma época em que 2 + 2 nem sempre era 4 no futebol. Mas se você não se assusta facilmente, siga o resto do texto e veja a incrível história de como o saldo de gols chegou ao futebol.

Como é feito?

Antes de voltar à história da introdução deste post, vamos explicar essa elaborada técnica de desempate. O saldo de gols é a aplicação daquela aritmética básica que a tia Marocas lhe ensinou lá na sua primeira série: pegue os gols que o seu time marcou nos jogos em questão, diminua pelos gols que ele sofreu e pronto. Eis o saldo. Ok, como o resultado pode dar negativo, você aprendeu isso um pouco mais velho, lá pelos seus 10 ou 11 anos, mas essa não é a questão. O que importa é que é realmente simples assim.

Uso

Hoje o saldo de gols parece tão óbvio que é usado para tudo que envolva mais de um jogo: fases de grupo ou eliminatórias em ida-e-volta, só perdendo em importância, é claro, para os pontos. Ocasionalmente as vitórias ou o confronto direto também vem antes do que o saldo de gols, mas nem por isso ele deixa de aparecer (como você determina um vencedor de um confronto direto quando há jogos de ida-e-volta? Saldo de gols).

E, se pararmos para pensar, podemos formular que cada partida de futebol considerada à parte é determinada pelo saldo de gol, afinal o vencedor é aquele que sair de campo após os 90 (ou 120) minutos com saldo positivo – em outras palavras, quem marcou mais gols que o adversário.

Olha, ainda não espalhem por aí, mas vamos ver até o fim do post que existem exceções que não usam o saldo de gols como desempate.

 

Em 1958, 3 dos 4 grupos tiveram jogos desempate. Em 2, o time de pior saldo avançou: Gales (na foto) e Irlanda do Norte. O terceiro, URSS, tinha campanha idêntica à Inglaterra que eliminara.

Histórico

É aqui que começa a história de terror dos amantes da matemática. No futebol antes da década de 40, a soma de dois resultados com sinais opostos, não importando o valor numérico era… 0. Isso mesmo, zero. Em outras palavras, não existia saldo de gols.

Vamos ao exemplo prático: seu time joga a final de um campeonato em ida-e-volta. No primeiro jogo, você sai vitorioso por 10 a 0; no segundo, surpreendentemente, seu time perde por 1 a 0. Resultado: com sorte um jogo extra, pois haveria um empate – com azar, um cara-ou-coroa. Era exatamente assim que funcionava.

Desde a década de 1930 o desempate pela média de gols (veja o item “Curiosidades” no fim do post) era utilizado apenas para fase de grupos em desempates considerados irrelevantes. Exemplo: em um grupo de eliminatórias com 4 seleções em que duas se classificariam, era aceitável esse desempate entre 3° e 4° (pois os dois já estavam fora) ou mesmo entre 1° e 2° (pois os dois já estavam classificados); jamais entre 2° e 3°.

A inovação começou a ganhar corpo na década de 1950 e apareceu pela primeira vez em uma Copa no Chile, em 1962. É se hoje é óbvio falar que 2 + 2 = 4, o cara que descobriu isso revolucionou a matemática. Gênio é o cara que fala o óbvio pela primeira vez.

Exemplos

Desnecessários, o saldo de gols – hoje – é óbvio.

Justiça? A análise do Cultura.

Muito justo. Consegue premiar o equilíbrio entre ataque e defesa na hora de desempatar qualquer campeonato.

Críticas

Nunca tomamos conhecimento de ninguém que tenha contestado o saldo de gols.

Aberrações

As aberrações, na verdade, vinham do não uso do saldo de gols. Como no exemplo abaixo:

 

A Turquia jogou a Copa de 1954 após eliminar a Espanha no sorteio. Se houvesse saldo na época, estaria fora.

Eliminatórias UEFA 1954

Espanha 4 x 1 Turquia

(?; 4 x 1)

Turquia 1 x 0 Espanha

(?; 1 x 0)

Espanha 2 x*2 Turquia

Jogo Extra (?; ?; ?; 2 x 2)

*Turquia se classifica para a Copa no sorteio, mesmo o placar agregado sendo de 6 a 4 em favor da Espanha.

Curiosidades

– Média de gols: antes da introdução do saldo de gols como o grande desempatador do mundo do futebol, foi testado o sistema de média de gols, que consistia em dividir o número de gols marcados pelo de gols sofridos. Ele é muito utilizado até hoje em competições de basquete e vôlei, por exemplo, mas não se mostra tão bom para esportes que, como o futebol, a pontuação é baixa (apesar de já ser uma evolução à época em que não se tinha nada). Quer ver:

1) O time A marca muitos gols, foram 15 e apenas 3 sofridos. Saldo: 15 – 3 = 12. Média: 15 ÷ 3 = 5.

2) O time B marca poucos gols, foram 5 e apenas 1 sofrido. Saldo: 5 – 1 = 4. Média: 5 ÷ 1 = 5.

3) Todos os times que não sofreram gols, mesmo marcando apenas 1, 10 ou 100, tem a mesma média: infinita (pois a divisão é feita por 0).

– É raro, mas alguns campeonatos prevêem que se em uma eliminatória de ida-e-volta os resultados dos dois jogos foram contrários (vitória e derrota), é necessário um terceiro jogo independente do saldo, a ser realizado com mando de quem tiver a melhor campanha ou em campo neutro. Na maioria dos casos, o time que tem o melhor saldo do primeiro jogo costuma jogar pelo desempate, mas nesse ponto também há exceções. Exemplos clássicos são as finais da finada Copa Mercosul (terceiro jogo com mando da melhor campanha e valendo o saldo) e as finais da Copa Libertadores até a década de 80 (terceiro jogo em campo neutro e sem saldo).

 

Em 1985, o Coritiba foi o primeiro - e até agora único - campeão brasileiro com saldo negativo: fez 25, levou 27 gols.

– Casos ainda mais bizarros existem por aí, como regulamentos que não prevêem o saldo em eliminatórias de ida-e-volta e fazem o desempate direto pela campanha (o que faz com que na prática o time de melhor campanha dependa de apenas uma vitória simples em dois jogos).

– Um caso curioso é o dos últimos Campeonatos Roraimense. Acostumados a ver um ou mais times que perdiam os primeiros jogos por placares elásticos desistirem durante a competição e prejudicarem quem podia fazer saldo contra eles, o desempate instituído foi o de menor número de gols sofrido nas fases de grupo. Outro detalhe: na final em dois jogos, não há desempate por saldo. Coisas do Brasil.

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