Chega de 0 a 0. A desigualdade na igualdade.

Quem tem vinte anos ou mais e acompanha futebol se lembra: na década de 1990, em toda Copa do Brasil era preciso lembrar como funcionava aquela história do gol fora de casa. Ela parecia tão bizarra que alguns chegavam a pensar que o gol na casa do adversário valia dois. Passados 10 anos, essa é uma das regras mais comuns do futebol atual. Mas para o Cultura, nem por isso deixou de ser bizarra. Veja o porquê no restante do post.

 

Em 2005, Suíça e Turquia somaram 4 a 4 após dois jogos - e muita pancadaria. A Suíça se classificou para a Copa no gol fora de casa.

Como é feito?

A premissa é simples: o gol fora de casa é considerado critério de desempate. Quem marcar mais quando não é mandante, tem vantagem nesse critério.

Uso

O uso mais comum é o da Copa do Brasil: partidas eliminatórias em ida-e-volta, sendo considerada já como o segundo desempate após o saldo de gols. É dessa forma que ele aparece em competições no mundo inteiro, como Libertadores, Liga dos Campeões da Europa e Eliminatórias da Copa.

Há um segundo uso, menos freqüente, como um dos muitos critérios na hierarquia de desempate de uma fase de grupo. Por exemplo, nas Eliminatórias da Eurocopa que começaram este ano, os critérios são: pontos no confronto direto, saldo de gols no confronto direto, gols marcados no confronto direto, gols fora de casa no confronto direto, depois repete-se todos os critérios para jogos contra todos os times do grupo e, finalmente, conduta de fairplay (menor número de cartões recebidos). Ah, claro, depois ainda tem o sorteio.

 

Na final da Copa do Brasil de 2008, o Sport avisou depois do 1° jogo no Pacaembu contra o Corinthians: o gol de honra nos 3 a 1 era o do título. Dito e feito, 2 a 0 na Ilha do Retiro e título nos gols fora de casa.

Histórico

O gol fora de casa começou a ser usado na Europa entre clubes na Recopa de 1966/67. A primeira decisão por esse critério foi entre Budapest Honvéd (Hungria) e Dukla Praha (atual Rep. Tcheca). Os húngaros ganharam de 3 a 2 em Praga; o Dukla venceu por 2 a 1 em Budapeste, sendo eliminado. A idéia era evitar os pênaltis e fazer com que os times visitantes jogassem mais no ataque, deixando o jogo mais aberto.

Exemplos

Uma regra cotidiana, temos exemplos aos montes todos os anos. Mas, para ficar em um de Copa do Mundo, segue:

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Repescagem das Eliminatórias Uefa 2010

Rússia 2 x 1 Eslovênia

(1 x 0; 2 x 1)

Eslovênia 1 x 0 Rússia

(1 x 0; 1 x 0)

Desempates: placar agregado (2×2); gols fora de casa (EVN 1×0)

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Este gol esloveno, marcado durante a derrota em Moscou, valeu mais que qualquer outro e eliminou o excelente time russo (teve um aproveitamento de 63,3% nas eliminatórias).

Justiça? A análise do Cultura.

Repare no exemplo anterior. Por que foi negada à Rússia a vaga na Copa se ambos os times marcaram 2 gols? A Eslovênia marcou 1 gol a mais fora de casa, porém marcou 1 a menos dentro. A regra do gol fora de casa, para o Cultura, não é esportivamente justa. Não há nada que justifique um gol fora de casa tenha maior valor do que o gol em casa. O gol é o objetivo supremo do futebol e deveria ter o mesmo valor em qualquer lugar. Para efeito de comparação, consideramos a decisão por pênaltis muito mais justa, pois algum time fez mais gols que o outro, mesmo que eles não sejam válidos para o placar final do jogo.

Críticas

Além das críticas feitas pelo Cultura quanto à justiça da regra, há uma outra muito mais comum: aquele objetivo de tornar os jogos mais abertos jamais foi atingido. Ao invés do time visitante jogar no ataque e deixar o jogo ofensivo, o time mandante joga na defesa e retranca o jogo (fator notado principalmente na primeira das duas partidas).

Aberrações

O Cultura considera a regra em si uma aberração. Mas há aplicações consideradas estranhas até para quem apóia o gol fora de casa.

– Aberração 1 (não há “fora de casa”)

 

O Flamengo não precisou, mas na final da Copa do Brasil de 2006 contra o Vasco a regra do gol fora de casa estava suspensa: ambos mandaram seus jogos no mesmo estádio, o Maracanã.

Isso acontece quando os dois jogos são mandados no mesmo lugar e ainda assim o regulamento utiliza a regra, como no exemplo abaixo. Nesse caso, a Copa do Brasil é exemplo: se os dois jogos são no mesmo estádio, a regra não é aplicável, como foi o caso da final da Copa do Brasil entre Vasco e Flamengo em 2006, no Maracanã.

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Eliminatórias Concacaf 2010

Bahamas 1 x 1 I. Virgens Britânicas

(0 x 0; 1 x 1)

I. Virgens Britânicas 2 x 2 Bahamas

(0 x 1; 2 x 2)

*Por problema no estádio das Ilhas Virgens, ambas as partidas foram jogadas nas Bahamas, mas mesmo assim estas se classificaram pelo gol “fora de casa”.

Desempates: placar agregado (3×3); gols fora de casa (BAH 2×1).

Observação: o desempate no padrão CBF seria: placar agregado (3×3); gols fora de casa (inexistente); pênaltis (a serem cobrados).

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– Aberração 2 (tempo diferentes em casa e fora)

Em qualquer competição continental na Europa, jogo empatado vai para a prorrogação. O que gera uma aberração, pois o time visitante no segundo jogo tem a possibilidade de jogar 120 minutos para marcar seus gols fora de casa, contra apenas 90 do adversário. Em competições da Concacaf, o gol fora de casa só é usado até o final do tempo normal, para evitar essa anomalia.

O exemplo abaixo é emblemático. Após o 3 a 2 do Rangers na Escócia, o Sporting repetiu o 3 a 2 em casa. Empate em saldo e em gols fora de casa demandou uma prorrogação, onde cada equipe marcou 1 gol. Como a regra não tinha nem 5 anos de uso, o juiz do segundo jogo se confundiu e ordenou pênaltis ao final da prorrogação, que foram ganhos pelo Sporting. Porém, a Uefa depois confirmou que o gol do Rangers na prorrogação valia para o desempate e o time escocês ganhou a vaga. Para título de curiosidade, na Concacaf a interpretação do juiz é a correta e esse jogo realmente iria para os pênaltis.

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Recopa de 1971/72

Rangers ESC 3 x 2 Sporting POR

(?; 3 x 2)

Sporting POR 43x03* Rangers ESC

(?; 3 x 2; ?; 4 x 3 – 3 x 0*)

*Pênaltis depois anulados.

Desempates: placar agregado (6×6); gols fora de casa (RAN 3×2).

Observação: o desempate no padrão Concacaf seria: placar agregado (6×6); gols fora de casa (2×2); pênaltis (SPO 3×0).

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– Aberração 3 (regulamento da Libertadores)

A Libertadores adotou o gol fora de casa apenas em 2005, mas fez uma ressalva: ele não vale na final. Isso gera uma confusão nos times, que precisam se adaptar a uma nova estratégia apenas para uma fase do campeonato. Em 2008, o Fluminense foi vítima desse porém na regra. Em qualquer outra fase, o time brasileiro teria eliminado a LDU, porém na final o jogo foi para a prorrogação e pênaltis, onde o Tricolor das Laranjeiras perdeu o título inédito.

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Final da Copa Libertadores de 2008

LDU EQU 4 x 2 Fluminense BRA

(4 x 1; 4 x 2)

Fluminense BRA 31x31 LDU EQU

AET (2 x 1; 3 x 1; 3 x 1; 3 x 1 – 1 x 3)

Desempates: placar agregado (5×5); gols fora de casa (inexistente); pênaltis (LDU 3×1).

Observação: o desempate em qualquer outra fase seria: placar agregado (5×5); gols fora de casa (FLU 2×1).

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Em qualquer fase da Libertadores de 2008, o Fluminense passaria pela LDU, menos na final.

Curiosidades

– A Conmebol foi a federação mais resistente à regra, só a adotando a partir de 2005 em seus torneios. Entretanto, faz uma ressalva: a Libertadores, sua competição mais importante, não pode ser decidida com o gol fora de casa e na final – e apenas na final – a regra não é válida (ver exemplo em “Aberrações”). Um atestado de que a mesma não a considera lá muito justa.

Uma resposta to “Chega de 0 a 0. A desigualdade na igualdade.”

  1. Ataque Aéreo Says:

    Gol é gol e não se fala mais nisso. Acho bizarra essa regra.

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