Ídolos sem calçada 1

O craque da pelada

Nem Pelé, nem Maradona. Mas também não foram Zico, Rivelino, Garrincha e nem tantos outros que estão na frente do argentino na minha lista. Mas esses ídolos são de uma outra realidade. O melhor jogador que eu tive o prazer de jogar no meu tempo foi Lucas Albani. Não conhece? Sem problemas, é só aparecer nas quadras de Vitória para acompanhar. Porque Lucas Albani, vulgo “O Proxeneta”, é craque de peladas.

E nem por isso deixou de construir uma legião de fãs-amigos. No Condomínio Mar Azul, era ídolo, maior artilheiro da história; contou 100 gols em menos de um mês. Na universidade, era caçado e odiado pelos rivais mais ferrenhos e admirado pelos mais camaradas. Confesso sem modéstia que tive boa contribuição na construção do mito, afinal a gente jogava umas três partidas por semana. Para mim, que me posicionava bem na marcação, tinha bom passe e fôlego para correr até o ataque e voltar o jogo todo, encontrar Lucas desmarcado era fácil. Muitas vezes, um gesto de cabeça já dizia se era “vou passar nas costas do adversário” ou “tabela que eu recebo na frente”. Por outras, nem precisava olhar para saber onde ele ia estar. E aí o poder de decisão era incrível. Sem firulas, driblando para frente, com inteligência de jogo, humildade para reconhecer os erros e bola no fundo do gol, pois isso é futebol – e se errar fica esperando de fora.

Além de alguns campeonatos, presenciei outras façanhas na “carreira” de Lucas que só quem joga pelada sabe como são. O recorde de duas horas sem sair de quadra na quadra de “Potosí”. Uma hora só ganhando na quadra da Ufes, com uns três gols seus no “sair acaba”. E aquela primeira pelada na Contec, que ficamos de fora e quando entramos decidimos o jogo em 5 toques (igual a 2 gols).

É, meu camarada, bons tempos. Mas a vida de peladeiro é diferente de boleiro e as recordações vão ficando pelo caminho, junto com o fôlego – este meu velho companheiro já dá sinal de cansaço. Como já foi dessa o saudoso Mestre PC, grande amigo e técnico da Selecom, com quem Lucas era titular absoluto, sempre em nossa memória. Não há programas especiais sobre a carreira do peladeiro, nem recortes de jornais ou nada que prove tudo aquilo que foi dito. Mas as histórias, essas ficam, sendo contadas em cada esquina pelos bons e velhos amigos. Ainda ecoam no Cachambi, Zona Norte do Rio, o respeito por Renato, Roney, Rossini e, principalmente, Ronaldo Vogas, reis do Godozão. Uma conversa entre primos é o bastante para desenterrar a bem-sucedida equipe dessa segunda geração, com Gabriel, Henrique, Bruno, Tiago, Vitor e, novamente ele, Ronaldo Vogas, e eternas zoações com o Renan, que quis jogar pela sua outra família e perdeu (mas isso é história para outro texto). E junto com você, as pessoas ainda se lembram de Mudo, Batistuta, Engenheiro, Douglas, Marcos, Alemão, Jirlan, João, Téo…

Portanto, mesmo estando novo ainda, com muita quadra para correr, neste seu aniversário tenha uma preocupação a menos. Onde e quando o restante dos amigos e bons peladeiros deste tempo de hoje se reunirem, vamos nos lembrar de quem foi Lucas Albani. Pois assim são com os craques da pelada que também são craques da vida. Parabéns, brou.

A homenagem foi ao aniversariante Lucas Albani, produtor do Cultura F. C., mas esta sessão é dedicada a todos os peladeiros, que movem a verdadeira cultura do futebol no Brasil. Qualquer um pode se identificar com o personagem do texto.

4 Respostas to “Ídolos sem calçada 1”

  1. Lucas Albani Says:

    É Brou, isso sim é uma homenagem! Emocionado fico só de lembrar das NOSSAS conquistas, jogadas e poucas, mas construtivas, derrotas. Posso ficar tranquilo que nossos guris um dia ouvirão muitas crônicas a respeito de como foi e é muito bom jogar o futebol que jogamos.

    Obrigado mais uma vez brou! Pelo texto, pelas jogadas, pela raça e pelas vitórias.

  2. Douglas Anholeti Says:

    Fazer parte dessa história é gratificante, e mais ainda é a amizade construída nesses anos. Avante Proxeneta!

  3. Eduardo Spencer Says:

    Lucas Albani pra mim e um mito um lenda
    Me ensinou a jogar e a marcar os adversários, como se fosse um mendigo atrás de um prato de comida devo tudo a ele, hoje jogo no Northshire da Inglaterra(2ª divisão), obrigado por tudo, um grande abraço

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