Crônica: O jogo atemporal

Rola a bola e o tempo pára. Aquela satisfação pelo trabalho que foi feito de manhã se esvai. A preocupação pelo texto que você ficou de enviar no primeiro horário do outro dia não existe mais. Se a bola rola, passado e futuro são inalcançáveis.

Enquanto físicos do mundo inteiro procuram por novas dimensões além das quatro conhecidas, dentro de campo elas são reduzidas a apenas três: profundidade, percebida no passe para o primeiro gol; largura, percebida desesperadamente pelo goleiro que grita por mais um jogador na barreira; e altura, esquecida pelo zagueiro que não pulou junto com o atacante que cabeceava sozinho. O tempo é deixado para quem espera do lado de fora. E lá ele passa devagar, como se fosse para compensar todos aqueles que não o sentem passar dentro das quatro linhas.

Você recebe a bola, passa, corre, se desmarca, recebe na frente, chuta e comemora. Sempre vivendo aquele momento. Coitados daqueles que tentam sair da hipnose do jogo. Pensou naquele passe errado no começo do jogo? Vai errar o próximo. Recebeu a bola e pensou em como driblará os dois zagueiros e o goleiro à frente? Perdeu a bola para o volante que nem viu de onde veio. Se não soube o que fazer com a bola no exato momento em que a recebeu, já era.

No xadrez, o craque tem que pensar dez, vinte lances na frente. O craque do futebol pode até pensar dois, três toques, mas sempre processando o que está acontecendo no momento. Onde estão os adversários, onde estão os companheiros e para onde estão correndo. Uma fração de atenção – ou desatenção – pode gerar um plano completamente novo de jogada. Dentro do campo, tudo depende de cada momento.

Viver o presente. Uma busca secular de muitas filosofias e que poucas atividades conseguem propiciar. É por isso que o prazer atemporal do futebol não tem preço e tem tantos adeptos e dependentes psicológicos. Quem consegue estar lá, não quer parar. E a simplicidade da sabedoria do peladeiro já diria o que Einstein provou com cálculos complicados: o tempo não passa igual para todos.

Por: Cultura FC

Uma resposta to “Crônica: O jogo atemporal”

  1. Ataque Aéreo Says:

    momento nostalgia: peladas.

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