Amor à camisa – mito de ontem, bode-espiatório de hoje

Um dos maiores atacantes da história, Romário defendeu os rivais Vasco, Flamengo e Fluminense.

Com qualquer transferência ou qualquer má atuação de um jogador já vem a primeira acusação contra ele: não tem amor à camisa. No restante do post, vamos tentar entender o que é esse sentimento: ele realmente está tão desvalorizado hoje ou ele realmente era tão valorizado no passado.

O primeiro ato de profissionalização do futebol ocorreu quando alguém teve a idéia de cercar um campo de futebol e falar: “este é o meu estádio, se quiser ver o jogo terá que pagar o ingresso”. Parábola de Rousseau do surgimento da propriedade privada? Não, a mais pura realidade, ocorreu na década de 1880 durante a FA Cup. De lá para cá, o futebol, que era um esporte amador, se profissionalizou (na Inglaterra já em 1885), mas só foi virar um negócio milionário mesmo nos últimos 35 anos.

Por isso, era mais do que comum ver jogadores atuarem uma carreira inteira em um único clube. E, com isso, muito diferente de hoje, o torcedor sabia escalar seu time do goleiro ao ponta-esquerda. É esse sentimento de identificação que se perdeu junto com os negócios. Acabou o amor à camisa?

Olha, pedindo desculpas ao torcedor fanático e, principalmente, ao ex-jogador que viveu essa época, é provável que a idealização do amor à camisa só tenha começado a partir do momento em que as transferências começaram, ou seja, teoricamente quando ele teria começado a ruir. O que acontecia era que em uma época que salários eram miseráveis para um jogador, qual era o sentido de trocar uma pobreza por outra? É exatamente o contrário do que vemos de jogadores há muito tempo em clubes europeus. Eles não amam seus clubes a ponto de não se transferir, mas sim já recebem tão bem que é difícil ter proposta melhor.

Garrincha assinou contrato em branco com o Botafogo.

E mais, antigamente os contratos eram abusivos. Garrincha quase foi mandado embora do Botafogo porque quando ia renovar o contrato se recusou a assinar um papel em branco, como fora obrigado da primeira vez. E a torcida do Botafogo queria linchar o craque. Os jogadores hoje com certeza não são os vendidos que são acusados, mas sim, outro termo muito usado, são realmente profissionais do esporte. Se coloque no lugar deles, você trabalha há 10 anos em uma empresa e recebe uma proposta de ganhar 3 vezes mais na concorrência. Você tem família para sustentar, vai dizer que não iria por amor à empresa?

Rogério Ceni: 20 anos de São Paulo, 17 anos (e único clube) como profissional.

Sim, torcedor (coisa que também sou), concordo que isso empobrece a magia do futebol e que é chato ver seu time se desmontar na metade do Brasileirão. Mas “amor à camisa” é um termo que considero muito forte. Mesmo nas décadas de 1950/60 existem raros casos de transferência no Brasil por melhores salários. Na Europa, então, já se começava as trocas de clube com freqüência nessa época. Prefiro ficar com perda de identidade do jogador com o clube, isso sim existia e acabou. É claro que se o jogador fica cinco, dez, vinte anos no clube, seja qual for o motivo (falta de proposta melhor, preso a contrato ou porque está satisfeito com o que ganha, mesmo), ele realmente incorpora tudo o que o clube representa. Sabe quem são seus maiores rivais, reconhece o que é importante para a torcida, cria laços afetivos com a instituição (igual os laços que você, que trabalha há 10 anos no mesmo lugar, tem com a empresa).

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Hoje, com o mercado acelerado, fica difícil achar aquele jogador que tem “a cara do clube”, como Rogério Ceni no São Paulo. OK, esse exemplo foi fácil, Rogério ficou a carreira inteira no tricolor. Mas existem alguns outros, jogadores que nem jogam no clube mais: Ibson com o Flamengo, Thiago Neves com o Fluminense, Fernandão com o Internacional, Diego com o Santos, Ronaldinho com o Grêmio. Veja que a identificação agora é, na maioria das vezes, com o clube que revela o atleta e, principalmente, de atletas que ficaram tempo suficiente no clube para gerar algum reconhecimento. Como foi o bom exemplo do Neymar ficando mais tempo no Santos, o que o Robinho fez no início de carreira.

Aliás, muito bom o exemplo dos dois, até para gestão de carreira mesmo. Criar identidade com um clube é quase um seguro desemprego para o atleta. Hoje o Robinho tem tanta identificação com o Santos que, se der errado de novo sua temporada na Europa, já tem pra onde voltar. Agora pense em um garoto que saiu do Brasil com 15 anos e não rendeu no Velho Continente. Ele vai voltar para onde, se nunca teve uma “casa” aqui? O próprio verbo “voltar” implica em já ter estado no lugar antes.

É, o sentimento nostálgico é algo comum de geração para geração. Daqui a 30 anos você estará falando para os netos: “ah, meu filho, tempo bom era o dos anos 2000”, assim como Mário Filho dizia na década de 1950 que tempos bons eram os anos 20. Mas a verdade é que essa perda de identidade é uma triste realidade que temos que conviver hoje. O futebol não vai voltar a ser amador, pode ter certeza, mas nem por isso o futebol deixou de ser o futebol. Pense nisso.

Obs.: O publicitário João Paulo Pitanga – do blog Ataque Aéreo – mandou a contribuição abaixo mostrando uma das raras exceções de jogadores que realmente tiveram a chance de ter um salário milhonário e recusaram. Clique na imagem abaixo para ampliar.

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Uma resposta to “Amor à camisa – mito de ontem, bode-espiatório de hoje”

  1. Sandro Says:

    O torcedor tem que amadurecer para a vida, deixar de ser muito ligado à instituições que ele mal conhece. O clube de futebol é uma empresa privada que pertence a um determinado grupo e os jogadores são empregados deste. O negócio é a grana, sem ela não há conversa.
    O jogador tem mais é que vestir as camisas que lhe convir, pois o futebol é uma carreira muito curta e depois que vai sustentá-los?
    O jogador é profissional e profissional não tem sentimentos e sim obrigações trabalhistas.

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