Futebol: a Revolução Tecnológica (infelizmente) ainda não chegou aqui.

Iam-se já 35 minutos do segundo tempo. O empate em 0 a 0 dava ao time da casa o título inédito do torneio. Mas, em uma falta cobrada para a área, o atacante sobe em clamoroso impedimento, desloca o goleiro (sem, entretanto, conseguir tocar na bola) e é gol. Qualquer juiz conseguiria marcar a irregularidade. O computador não.

Na discussão sobre tecnologia no futebol a FIFA está anos-luz atrás da realidade do mundo atual, mas está certa em um ponto: a tecnologia não pode tomar as decisões pelo árbitro. Acompanhe durante o resto do texto a opinião do Cultura sobre essa polêmica no futebol e algumas propostas de tecnologia durante as partidas.

A SUBJETIVIDADE DAS REGRAS

As regras de futebol podem até ser claras, como diria o bordão do Arnaldo Cezar Coelho – e embora muitos discordem –, mas estão longe de serem exatas. Ao contrário da maioria dos esportes, no futebol as regras não dizem “É” ou “NÃO É”, mas sim “PODE SER”. As recomendações de especialistas para os árbitros estão repletas de termos como “intenção”, “força desproporcional”, “imprudência”, “prejuízo real”, “participação efetiva” e é aí que entra o grande diferencial – e polêmica – do árbitro do esporte bretão: o direito ao seu critério, a subjetividade.

Você pode até estar lembrado de lances similares ao que descrevemos no primeiro parágrafo, mas não viu exatamente esse, temos certeza. Ele aconteceu em uma partida de vídeo games (usando o jogo de futebol mais popular para computadores, versão 2010). E se nos gramados os juízes têm as chamadas limitações humanas e não conseguem ver tudo que acontece, as máquinas têm a limitação tecnológica e não sabem (e nem vão saber por um longo tempo) fazer interpretações subjetivas. O game “viu” o jogador impedido, e sempre vai ver, mas não soube precisar a participação clamorosa do jogador pois ele não tocou na bola.

É por isso que a tecnologia na arbitragem já passou da hora. Mas ela deve vir para somar o que há de melhor entre os dois lados: as máquinas devem mostrar o que está acontecendo; e deixa as decisões com quem é inteligente, o ser-humano.

COMO SE APROVA O USO DE TECNOLOGIA?

Quem regula as regras do futebol é a IF-Board, órgão que reúne as federações que “criaram” o futebol (Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda do Norte) e a FIFA. As federações nacionais tem 1 voto cada e a FIFA 4, toda moção precisando de 6 dos 8 votos para a aprovação. Ou seja, na prática a FIFA tem direito a veto. Na última reunião do conselho, em março deste ano, a bola com chip teve apenas dois votos favoráveis: Inglaterra e Escócia. Já é algo. Mantendo-se esses votos (o que deve ocorrer depois que a Inglaterra foi prejudicada na Copa), significa que agora só depende dos dinossauros da FIFA terem boa vontade para atingir os 6 votos.

OS ARGUMENTOS CONTRÁRIOS

– O fim do fator humano.

Ok, como já falamos antes o homem é fundamental na arbitragem do futebol. Mas é preciso diminuir as chances de erros. Um lance pode dar resultado às expectativas de inúmeros de apaixonados, o treinamento de uma vida de atletas e investimento de milhões de investidores. E, para usar um dos comentários mais fortes já feitos nesse site, é absurdo e ridículo alguém falar que o “erro é parte fundamental do jogo”. Simplesmente não faz sentido. Quero ver alguém falar isso quando for o seu time perder com um gol em que a bola não entrou.

– O fim das polêmicas.

Difícil. A regra é cheia de minúcias e interpretações. Quer exemplos? O jogador chuta ao gol e a bola bate no braço do zagueiro, que já estava ali aberto, dentro da área. Para uns, normal, o zagueiro não levou a mão à bola e, portanto, não teve a intenção. Para outros, pênalti. O zagueiro não teve a intenção, mas a sua imprudência (jogar de braços abertos) criou um prejuízo real ao adversário. Agora, no contra-ataque, um jogador sofre a falta. Ajeita, cobra uma pedrada na direção do rosto do zagueiro, que leva a mão à bola para se proteger. Nova infração? Para alguns, sim. O jogador teve clara intenção de tocar a bola. Para outros, lance normal, pois o jogador teve uma reação de proteção a si e não caracterizou prejuízo ao adversário (a bola bateria no seu rosto de qualquer forma).

De qualquer forma, as polêmicas do “por que o meu treinador deixou o craque no banco?” ou “por que o infeliz não passou pro artilheiro ao invés de chutar na geral?” são muito mais saudáveis.

– A não universalização da tecnologia.

Veja bem, implantar tecnologia para aplicar a regra não significa mudar a regra. Se a tecnologia for aceita, o futebol da quarta divisão não vai deixar de ser futebol se não puder aplicá-la, continua a arbitragem do jeito antigo. É a mesma coisa que um sistema judicial no Brasil. A lei vale em todos os tribunais, mas se um tem a técnica para perícia mais precisa, ele não deve deixar de utilizá-la porque aquele menorzinho não dispõe do mesmo recurso.

Isso já ocorre em muitos esportes. Quem aí acha que todas as piscinas olímpicas do mundo têm medidores de alta precisão? E até mesmo no torneio de Wimbledon, um dos mais importantes do tênis, recurso tecnológico (caríssimo) só nas três quadras principais. Nas outras, ainda se resolve no olho do juiz.

Página da Revista Superinteressante (2006) explicando o funcionamento da bola inteligente e rastreamento de atletas. Clique para ampliar.

AS PROPOSTAS

– Rádio-comunicação e spray da barreira

Já muito usados, a comunicação eletrônica (via rádio ou VOIP) entre árbitro e seus auxiliares e o uso do spray para marcar a distância da barreira ainda não foram sancionados pelo IF-Board. O uso, todos já sabem, auxilia e muito a arbitragem nos dois casos.

– Bola com chip

Essa voltou com tudo à cena depois do lance do gol da Inglaterra na Copa que o juiz não viu. O IF-Board havia feito testes, mas cancelou o projeto. Basicamente, a bola é rastreada e envia um sinal a um receptor com o juiz quando cruza a linha do gol.

– Rastreamento de bola e jogadores e realidade aumentada

Melhorar a visão do impedimento na hora em que acontece é mais complicado. As duas propostas mais famosas são: rastrear a bola e todos os jogadores (com chips nas chuteiras), mostrando a um auxiliar quem está em posição de impedimento, e este decide se marca a infração; aparelho com tecnologia de realidade aumentada que cria uma linha virtual no último jogador da defesa. Ambos não resolvem completamente o problema (pois o juiz ainda tem que ver o momento exato do passe), mas já ajudam na visão dele.

– Auxílio de Vídeo

E a proposta mais famosa que em teoria resolve todos os problemas de falta de visão do juiz é o uso de imagens de vídeo. A Copa já mostrou que as câmeras vêem quase tudo mesmo, e tem precisão milimétrica em impedimentos.

Nesse caso existem algumas formas de uso sugeridas, todas preocupadas em não parar o jogo: árbitro reserva com tela ao vivo, podendo manipular a imagem e avisar ao juiz; direito de desafio aos capitães com número limitado, assim como no tênis; consulta por conta própria do juiz quando achar devido, como na NBA.

Bom, o Cultura não se propõe a dizer qual é a melhor forma de uso das tecnologias. Mas acreditamos que deve, sim, ser feitas pesquisas na área para no final do espetáculo podermos dizer que o resultado foi justo. Mesmo que o seu time tenha jogado merecido sorte melhor.

P.S.: É, quanto ao vídeo game, só me resta ficar igual um maluco na frente da tela xingando uma máquina como se fosse um juiz mesmo.

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Uma resposta to “Futebol: a Revolução Tecnológica (infelizmente) ainda não chegou aqui.”

  1. Ataque Aéreo Says:

    Sou a favor da tecnologia, até porque ela acusa da forma legal. Se for gol, ela vai mostrar. Se foi impedimento, também. É justiça e não prejuízo aos times.

    Abraaaaass

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