Matéria Futebol – Política (aula 2)

Colaboração de Vitor Vogas, jornalista da editoria de política de A Gazeta (com trechos divulgados no jornal)

Você sabia que um treinador da seleção brasileira já foi destituído do posto por ser assumidamente comunista? Sabia que um certo gol de mão marcado na Copa do Mundo fez toda uma nação se sentir vingada da derrota em uma guerra? E que o país anfitrião de uma Copa decidiu não executar os hinos nacionais antes dos jogos do mundial simplesmente por não reconhecer a existência de um dos países participantes?

Pois é. A relação sugerida por esses episódios pode não ficar tão evidente aos olhos dos torcedores, em meio à euforia e ao ufanismo que toma conta do país e do globo durante as Copas do Mundo. Mas a história dos 19 mundiais disputados até hoje nos revela que fatos geopolíticos sempre permearam a organização dos torneios. Acessando o restante dos posts, você confere alguns exemplos.

1934 – Itália Fascista


Na Copa de 34, disputada na Itália de Benito Mussolini, às vésperas da Segunda Grande Guerra, o ditador se valeu do evento para mostrar ao mundo todo o poderio do regime fascista – a exemplo, aliás, do que Hitler faria dois anos depois ao usar as Olimpíadas de Berlim para projetar mundialmente a Alemanha nazista. Vencer a Copa, portanto, era uma questão de honra para os italianos. Ou melhor, questão de vida ou morte. Foi por isso que, horas antes da partida final jogada entre o país-sede e a Tchecoslováquia, “Il Duce” enviou a cada representante do excrete italiano uma “singela” nota, em que se lia: “Vencer ou morrer”. Compreendendo o recado, os jogadores fizeram sua parte, derrotando o adversário pelo placar de 2 a 1. Mussolini ainda teria pressionado a arbitragem do torneio, e a “Squadra Azurra” teria sido beneficiada em lances capitais na final e na quarta-de-final contra a Espanha. Reza a lenda que o ditador teve um encontro sigiloso com o árbitro na véspera do jogo decisivo.

Espanha Franquista


Durante o regime de Franco na Espanha, era comum catalães e bascos, principalmente, se negarem a servir à seleção nacional.

1938 – Anexação da Áustria por Hitler


A Áustria, campeã da Copa Dr. Gerö de 1932 (equivalente à atual Eurocopa) e vice de 1935, 4ª colocada na Copa de 1934, vice-campeã olímpica de 1936, grande time europeu da década de 1930 junto com a Itália (todas as eliminações dela nos torneios que não ganhou foram para a Itália). Ela se classificou para a Copa e deveria jogar com a Suécia nas oitavas (1ª fase). Mas devido à anexação de seu país pela Alemanha de Hitler. Ninguém entrou no lugar dos austríacos e a Suécia passou direto para a segunda fase.

1938-1950 – Segunda Guerra Mundial


. As copas de 1942 e 1946 não puderam ser realizadas por causa da Segunda Grande Guerra. Depois da Copa de 1938, na França, a competição só tornaria a ser disputada em 1950, no Brasil.

1950 – Desistência escocesa


A Escócia se classificou em segundo no seu grupo das eliminatórias para a Copa (que tinha os 4 países do Reino Unido), ficando atrás da Inglaterra. Então ela se recusou a jogar, alegando que não teria sentido ir a um campeonato como vice-campeão britânico se a Inglaterra já estaria lá representando o país. Era a primeira eliminatória disputada pelos países do Reino Unido e esse pensamento nunca mais se repetiu.

1950 e 1954 – Preservação Peronista


A Argentina Peronista não disputou as eliminatórias. Peron tinha medo de sua seleção envergonhar o país nas Copas (o que se confirmou em 1958, quando eles levaram 6 a 1 da Tchecoslováquia, maior goleada já sofrida pela Argentina até hoje, junto com o último jogo com a Bolívia em La Paz – 6 a 1 também).

Eurocopa de 1960 – Boicote espanhol


Na primeira Eurocopa, só as semifinais e a final seriam sediadas na França. Nas fases anteriores eram jogos de ida-e-volta. E a Espanha Franquista se negou a jogar as quartas-de-final na União Soviética, perdendo por WO. A União Soviética foi campeã. Curiosamente a União Soviética enfrentou a Espanha na final da edição seguinte, sediada na Espanha. Como a Espanha sediava o torneio, desta vez apareceu em campo e ganhou.

Exílios (1958/1991)


Taiwan foi membro da OFC (Confederação da Oceania) de 1975 a 1989. Israel foi expulso da AFC (Ásia) em 1974 e jogou as eliminatórias de 1986 e 1990 na OFC, antes de ser admitido na UEFA em 1994. Mas o maior exílio foi o da África do Sul, que foi expulsa da CAF (África) e da FIFA em 1958 pelo apartheid, em um raro episódio que a FIFA tomou posição política oficial. Em 1991, após o término da política de segregação, foi readmitida nas duas instituições.

1966 – Coréia do Norte: o país não reconhecido


– Quando a República Democrática Popular da Coréia (nome oficial da Coréia do Norte) garantiu sua classificação nas eliminatórias para a Copa de 1966, a Inglaterra sabia que tinha um incidente delicado em mãos. O Reino Unido, na época, não a reconhecia como um país. E conseguiu dar algumas voltas diplomáticas para não ficar mal nem com a FIFA nem com a sua aliada República da Coréia (ou Coréia do Sul). Hinos só seriam executados nas partidas de abertura (que não teria a Coréia do Norte) e final (que dificilmente teria os norte-coreanos). E o nome adotado para o time no torneio foi o próprio apelido “Coréia do Norte”. A bandeira norte-coreana, entretanto, passou, e tremulou nos estádios ingleses.

– Ainda em 1966, um episódio que marcou uma Copa feita sob encomenda para o país anfitrião (e inventor do futebol) finalmente sagrar-se campeão. No acirrado jogo das quartas-de-final entre Inglaterra e Argentina, o 0 a 0 persistia no placar, quando o árbitro alemão expulsou inexplicavelmente o argentino Antonio Rattín. Em protesto, o jogador se sentou sobre o tapete vermelho em que só poderia caminhar a Rainha Elizabeth II. Antes de descer para o vestiário, ainda amassou uma bandeirola inglesa. O jogo acabou em 1 a 0 para os anfitriões, e ali nascia a rivalidade entre Inglaterra e Argentina.

1970 – A Guerra do Futebol e a Guerra Ideológica


– Em 1969, a tensão entre El Salvador e Honduras explodiu após uma partida das eliminatórias entre ambos para a Copa do México e resultou em uma guerra que durou quatro dias. O saldo negativo foi de 3 mil mortos. O conflito entrou para a história com o nome “Guerra do Futebol”.

– Mas a mesma bola que pode causar guerras também rola (e geralmente rola) para o lado da paz.  Em 1967, os dois lados da Guerra Civil Nigeriana concordaram em um cessar-fogo de 48 horas para ver uma partida do Santos de Pelé em Lagos, capital do país. Em 1969, o mesmo cessar-fogo ocorreu na guerra entre a República do Congo e a República Democrática do Congo, desde que Pelé jogasse nas duas capitais (respectivamente Brazzaville e Kinshasa). Houve até escolta da delegação por um exército para entregar à escolta do exército rival na fronteira.

– Em 1970, Mário Jorge Lobo Zagallo entrou para a história como o treinador que dirigiu a seleção campeã da Copa do México, considerada a melhor de todos os tempos por nove entre dez comentaristas. Acontece que, em condições normais, a glória não seria dele. Um ano antes, a equipe canarinho havia se classificado sob o comando do jornalista e cronista esportivo João Saldanha, que entrou para a história do esporte como o treinador “deposto” por um general. Polêmico, Saldanha era muito contestado pelos métodos de condução dos treinamentos, mas o consenso histórico é que sua queda foi determinada mesmo por questões políticas. Comunista, Saldanha era inclusive filiado ao clandestino PCB, em plena ditadura militar. Além disso, peitou ninguém menos que o presidente Emílio Médici. Amante do esporte bretão, o general se aborreceu com a não convocação de jogadores que ele tinha em alta conta, como Dario “Dadá” Maravilha, centroavante do Atlético Mineiro. Saldanha teria assinado sua sentença ao disparar sua mais célebre frase: “Quem escala a seleção sou eu. Quando o presidente escalou o seu ministério, ele não pediu minha opinião.” O comunista caiu, e o Brasil sagrou-se campeão, tendo no banco o ufanismo de Zagallo e Dadá como reserva para o ataque.

Eliminatórias de 1974 – Boicote soviético


A URSS se negou a jogar a repescagem para a Copa de 1974 contra o Chile no Estádio Nacional de Santiago, porque o Estádio era usado como local de execução de comunistas. A FIFA nada fez a respeito e confirmou o WO soviético.

1974 – Alemanha x Alemanha


Na única participação da Alemanha Oriental em Copas, houve um jogo interessante na primeira fase entre as duas Alemanhas. A Oriental ganhou. Uns alegam que a Ocidental entregou o jogo para fugir do encontro com Brasil e Holanda na segunda fase.

1978 – Ditadura Argentina


Mais uma Copa toda organizada para que os donos da casa fossem os campeões. Numa manobra política dos cartolas, o jogo da Argentina contra o Peru foi transferiado, na última hora, para depois do jogo entre Brasil e Polônia (os jogos seriam simultâneos). Assim, os argentinos puderam entram em campo sabendo exatamente quantos gols precisariam marcar para passar à final. O Peru perdeu por 6 a 0, mas a displicência dos jogadores em alguns lances até hoje mantém viva a suspeita de que o jogo na verdade foi “entregado”. Assim como a Itália em 1934, a ditadura argentina também usou a Copa para promover o regime. Cada jogo tinha a pompa e a circunstância de uma parada militar.

1986 – Desistência Colombiana e Mão das Malvinas

– A Copa do Mundo seria disputada na Colômbia. Mas 3 anos antes, ela desistiu por conta dos problemas financeiros (e, extra-oficialmente, com as FARCs).

– Em 1986, na Copa do México, Diego Armando Maradona marcou, na mesma partida, dois gols que figuram na galeria dos mais célebres de todos os tempos. Um deles, pela plasticidade: Dieguito entrou com bola e tudo, “fazendo fila” desde o campo de defesa, no que muitos consideram o mais belo gol marcado em mundiais. O outro, pela astúcia: foi o gol marcado com a mão – segundo o próprio autor, “la mano de Dios”. Os dois tentos deram à Argentina a vitória sobre a Inglaterra, no jogo das quartas-de-final. Quatro anos antes, a mesma Inglaterra havia pisado no orgulho argentino, ao derrotar os portenhos na Guerra das Malvinas. As ilhas ao sul da Argentina até hoje pertencem aos ingleses, mas, para muitos argentinos, o gol do craque realmente foi marcado com a mão de Deus, para vingar a derrota histórica.

1998 – Irã x Estados Unidos


Irã e Estados Unidos se enfrentam na Copa no jogo conhecido como Jogo da Paz. Se em campo tudo ocorreu bem, fora dele a vitória iraniana foi alardeada pelos aiatolás como golpe no grande inimigo.

2002 – Antigas feridas na Ásia


Por causa de problemas diplomáticos com o Japão, a China exigiu jogar a primeira fase na Coréia do Sul. O contrário aconteceu com a Arábia Saudita, que requisitou jogar a primeira fase no Japão.

Uma resposta to “Matéria Futebol – Política (aula 2)”

  1. Vitor Vogas Says:

    Pô, Gabriel e Lucas, parabéns pelo trabalho no blog. Está realmente muito bom! Sobre este post em particular sou suspeito para comentar, mas a edição ficou muito legal e achei genial a ideia de fazer a chamada para o “curso”. Acho que vocês devem seguir divulgando o blog para jornais e sites especializados, principalmente os sites.

    Abraço,

    Vitor

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