Matéria Futebol – Política (aula 1)

Colaboração de Vitor Vogas, jornalista da editoria de política de A Gazeta (com trechos divulgados no jornal)

O que futebol e política têm a ver? Quem respondeu “tudo” tirou nota 10. Ou melhor, marcou três pontos. Desde os tempos em que se amarrava cachorro com linguiça (SCOLARI, Luiz Felipe, 2001), esses dois campos vêm se misturando de infinitas maneiras, principalmente durante as Copas do Mundo. Basta ver, por exemplo, como alguns países-sede se aproveitaram do Mundial para promover o próprio governo. As patriotadas já celebrizadas para que os anfitriões pudessem se sagrar campeões, por meio de jogadas de tapetão ou “erros” grosseiros da arbitragem. E o que dizer das vitórias épicas que ganharam ares de revanche histórica?

Nessa série de 3 aulas, você acompanha alguns episódios que entrelaçaram futebol e política. Abra o caderno, clique para ler o resto do post e bom estudo.

Política e Futebol

A história dos mundiais também é marcada por certas partidas que pouco ou nada significaram para o torneio em si, mas que, mesmo assim, concentraram as atenções do mundo inteiro. Países cuja rivalidade transcendia em muito o futebol já foram colocados frente a frente, em partidas carregadas de conotação diplomática. A Seleção canarinho também não escapa a essa sobreposição das duas áreas. Ao longo de sua gloriosa história, os governantes brasileiros sempre souberam se apropriar muito bem dos dividendos políticos gerados pelas conquistas internacionais dos nossos craques.

E, para atualizar este debate, vale uma reflexão mais detida sobre o modo como o jargão do futebol vem invadindo cada vez mais o universo político, fenômeno exacerbado através do presidente Lula. Apaixonado pelo esporte, o chefe de Estado e da torcida brasileira consegue adequar seu discurso político, com a máxima naturalidade, à linguagem do torcedor que discute futebol no bar, de tal modo que suas idéias possam ser prontamente assimiladas por cidadãos de todas as classes sociais e níveis de escolaridade.

O expediente, é claro, divide opiniões, mas, como, estratégia de comunicação, é tão bem-sucedido que tem inclusive inspirado outros figurões do governo, para não falar dos candidatos aos montes. Portanto, é bom se preparar: nas eleições deste ano, o futebol vai seguir em evidência, mas no horário eleitoral gratuito.

O futebol a serviço da política

Desde 1994, o calendário eleitoral brasileiro e o calendário da Fifa se encontram a cada quatro anos. Para o brasileiro, é fácil se lembrar: ano de Copa é também ano de eleição. Ao correrem paralelamente, as duas disputas ficam associadas na memória, e a coincidência de datas proporciona relações que vão além do atraso no começo efetivo das campanhas. Afinal, o sucesso da seleção no mundial com certeza não vai decidir uma eleição, mas pode influir bastante na autoestima e no otimismo do povo, o que conta muito para aqueles que representam a situação.

Por isso, não é de hoje que os governantes buscam colher os dividendos políticos potencialmente gerados pela força da seleção brasileira. Já em 1950, na fatídica Copa disputada no Brasil, o assédio de políticos aos jogadores foi tamanho que há quem o mencione como um dos fatores que concorreram para a derrota mais sofrida do Brasil na história das copas. Antes da partida final entre Brasil e Uruguai, foi enorme a afluência de políticos ao vestiário dos jogadores, todos querendo tirar uma “casquinha” dos craques brasileiros, tamanha era a certeza antecipada da vitória. Deu no que deu.

Em 1958, com o primeiro título mundial, conquistado na Suécia, a seleção finalmente nos livrou do tal “complexo de vira-latas” cunhado por Nelson Rodrigues e, indiretamente, contribuiu para ampliar no país o clima desenvolvimentista que o presidente Juscelino Kubitschek buscava imprimir no terreno político e econômico.

O mesmo se observaria, de modo ainda mais agudo, durante a Copa de 1970. A mobilização dos “90 milhões em ação” em torno da fantástica equipe brasileira e, posteriormente, a conquista do tricampeonato foram amplamente aproveitados pelo governo militar, para reforçar o ufanismo a respeito do país que dava certo, do “milagre econômico”, do “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Nos anos que se seguiram, a ingerência do governo sobre a seleção chegou a tal ponto que o presidente da Confederação Brasileira de Desportos (atual CBF) era o Almirante Heleno de Barros Nunes, e o treinador na Copa de 1978, Cláudio Coutinho, era capitão do Exército.

Já no período democrático, não há exatamente uma relação direta entre o desempenho da seleção e o resultado das urnas. Vejamos: em 1994, o Brasil voltou com o tetra, e o então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, elegeu-se presidente. Mas, quatro anos depois, o mesmo FHC chegaria à reeleição, apesar de o Brasil ter fracassado diante da França. Em 2002, veio o penta, o jogador Vampeta até deu cambalhotas na rampa do Palácio do Planalto, mas o candidato do governo, José Serra, perdeu para Lula. Na Copa/eleição seguinte, repetiu-se a história de 1998: derrota diante da França, mas reeleição para o presidente.

De todo modo, o governo Lula já conseguiu trazer a Copa de 2014 para o Brasil, o que na certa será utilizado na campanha de Dilma Rousseff. E por acaso alguém duvida que os dois têm mais motivos para torcer para o Brasil do que qualquer outro torcedor?

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